Desde criança eu sempre fui meio afoito e, algumas vezes meio estúpido mesmo. Em 1965, com seis anos de idade eu morava em Santa Cecília do Pavão, minha cidade natal, e o meu irmão Celso, que na época tinha dois anos de idade abriu o portão de casa e foi para o meio da rua e lá ficou parado. Minha mãe estava ocupada preparando o almoço e ele saiu rapidamente sem que ninguém o visse. Quando o vi, percebi que vinha um caminhão grande, marca Internacional, em sua direção. Saí correndo e peguei-o pela mão, mas ele começou a fazer birra e não queria sair do meio da rua. Como o caminhão estava se aproximando muito rápido fiz sinal com a mão para o motorista do caminhão parar e fiquei insistindo para que ele saísse da frente do caminhão que parou repentinamente, enquanto eu o tirava daquela situação de perigo.
Noutras ocasiões, cerca de quatro a seis vezes, já em Londrina, quando era adolescente, estudante, ao ver homens, de carro, provavelmente mal intencionados, em situação supostamente ameaçadora, assediando mulheres no meu caminho, normalmente, à noite, eu não tinha dúvida: acompanhava as moças e prontamente lhes oferecia a minha companhia e proteção.
Há uns quatro anos atrás, era por volta de 18:20 h de um determinado dia e eu ouvi, ao longe, um pedido insistente de socorro. Como eu estava concluindo um trabalho, no computador, não dei muita importância. Pensei tratar-se de brincadeira de alguém. Mas os gritos estavam se aproximando e insistentes demais! Então, resolvi ver do que se tratava e vi a minha vizinha, gritando, desesperada: “socorro! Socorro! Estão levando o meu carro. Daí eu lhe perguntei onde estava o seu carro e ela me disse que estava defronte à sua loja e que os bandidos estavam dentro...
Não tive dúvidas (outra vez)! Corri até o carro dela e, de supetão, abri a porta de lado direito (do passageiro) para surpreender os supostos ladrões! Uma loucura, totalmente suicida, pois eu estava desarmado e se os ladrões estivessem ainda dentro do carro e portando armas eu poderia ser morto naquele instante.
Assim, ao longo de minha vida, sempre que vi homens, mulheres e crianças em apuros, em qualquer circunstância, sempre estive pronto para ajuda-los de alguma forma.
Foi assim também na tarde do dia 06 de dezembro de 1976, uma segunda-feira, por volta das 18 horas, na Rua Samaumeira, no Bairro Jardim Santa Rita, em Londrina, quando eu estava no telhado de minha casa, arrumando a antena da televisão e vi o vizinho da segunda casa depois da que eu morava podando uma árvore que tinha vários galhos sobre a fiação da rede elétrica. Daí, perguntei a ele se os galhos cortados não cairiam sobre os fios e ele disse que não, pois os havia amarrado. Pela posição que vi as cordas, percebi que o que ele disse não tinha muito sentido, mas não quis discutir. Continuei meu trabalho. Não demorou muito e o primeiro galho foi ao chão, juntamente com dois fios da rede elétrica, da parte de cima do poste (os três fios) que, segundo a Copel é de 220 Volts.
Não tive dúvidas (de novo)! Desci do telhado e fui verificar os fios estendidos na calçada. Como os fios haviam se partido bem no meio, entre um poste e outro, ficaram quatro pontas no chão ameaçando a segurança dos transeuntes.
Era verão e o tempo estava ameaçando chover. Eu estava sozinho em casa e os meus pais e irmãos, assim como os vizinhos, voltariam para casa logo mais. Preocupado com todos eles, pois estava anoitecendo e não queria que eles encontrassem no escuro e embaixo de chuva, quatro fios esticados na calçada. Como não tinha telefone em casa e nem próximo, resolvi agir por conta própria e retirar os fios do chão. Então, com muito medo encostei a ponta do dedo num dos fios e não senti choque. Daí, peguei o fio, cheio de confiança, para o espanto dos vizinhos, e comecei a dobra-lo, firmando-o na palma de minha mão direita, segurando-o firme, pois o fio é grosso e exigia um pouco de força para segurá-lo dobrado.
Assim, fui dobrando o primeiro fio até a altura da metade do posto do qual havia caído, onde subi e o amarrei totalmente fora do alcance das pessoas, a cerda de três a quatro metros de altura do chão. Até aí tudo bem. Quando fui dobrar o segundo fio, faltando ainda mais dois para serem retirados do chão, começou a pingar a chuva que era anunciada. Como sabia que água conduz energia e, com os pingos sobre as mãos, já havia sentido um pequeno choque elétrico, resolvei me proteger.
Então, entrei em casa, calcei umas botas de borracha e peguei dois sacos de plástico grosso, do tipo embalagem de arroz, de 5 kg, vesti em ambas as mãos e continuei a dobrar o segundo fio. Depois de ter feito cerca de 20 (vinte) dobras no fio eu me vi esticado no chão, tentando ver se ainda tinha as pernas. Então, pensei que estava morrendo e perguntei para mim mesmo, em pensamento: - E agora? – Quem é que vai fazer o carro voador*? Daí por diante apaguei...
Logo em seguida comecei a ver uma espécie de filme mudo, não me lembro bem se era colorido ou preto e branco. Só me recordo que eram rostos de pessoas conhecidas que passavam rapidamente, um ao lado do outro, só que não ficou claro se era possível ver as pessoas de corpo inteiro. O que era marcante mesmo eram os rostos que me eram familiares. Não, havia, portanto, imagens de paisagens, objetos, imóveis ou de interior de ambientes. Não havia também “uma luz” ou coisa parecida, nem mesmo supostos anjos e santos. Apenas rostos. Nada mais!
De repente, despertei de sobressalto e disparei:
- Por que vocês me acordaram? Eu estava num sonho tão gostoso!”
Imediatamente percebi que estava dentro da cabine do caminhão do meu vizinho, de nome Israel, muito prestativo que havia dado a partida para me levar para o Pronto Socorro, mas, em razão do seu nervosismo diante da situação, deixou o motor “morrer” dando um solavanco que me despertou.
Dada a partida, ele me levou até o Pronto Socorro do Hospital Universitário de Londrina. Lá chegando, ele fez a minha ficha, enquanto eu passava meus dados, sentado numa cadeira, pois ainda estava trêmulo, assustando com o ocorrido, com marcas de queimadura na palma da mão direita, nos braços e no tórax, além de estar com o tórax muito doido. Mas, apesar da situação, devidamente relatada à atendente do hospital, só uma hora depois foi que apareceu um médico ou enfermeiro para me atender. Daí, como eu não estava mais tremendo, nem apavorado, ou seja, estava sentindo-me bem melhor, apesar dos ferimentos, senti-me insultado pela demora e falta de consideração e recusei-me terminantemente a ser atendido, apesar da insistência do Israel, do funcionário do hospital, da minha mãe e do meu irmão que chegaram lá algum tempo depois.
Não sendo atendido, voltamos para casa e o meu vizinho, agora mais calmo, à medida que eu perguntava, ele me respondia que enquanto eu estava enrolando os fios, de repente, houve uma explosão, momento em que ele, que estava ao meu lado, observando o meu trabalho, viu o meu corpo “voar” e cair de costas no chão. Os fios caíram sobre o meu peito e eu estava com a camisa aberta, pois estava calor. Daí ele, diante da situação, rapidamente buscou uma câmara de ar do caminhão do seu pai, jogou sobre o meu corpo e retirou os fios.
Logo em seguida ele e outros que tentavam me socorrer perceberam que eu estava sufocando, pois estava ficando roxo. Como alguém, dentre eles, sabia que o choque elétrico provoca o enrolamento da língua e a consequente morte por asfixia, trataram logo de abrir minha boca para desenrolar a língua, mas, segundo eles foram necessários quatro homens para destravar o meu maxilar – e machucaram a minha boca – para conseguirem desenrolar a língua e evitar o sufocamento.
Como recusei-me a ser atendido pelo plantonista do HU, somente alguns dias depois, como aquela dor do peito não passava, pude perceber que o meu externo, ou seja, o osso que liga as costelas havia trincado ou se rompido, pois, com as mãos eu conseguia perceber uma fissura no meio. Mas não procurei ajuda e cerca de dois meses depois não tinha mais nem fissura e nem dores.
Voltando ao assunto da experiência de quase morte propriamente dita, o que pude constar é que não havia anjos e nem santos na minha visão, haja vista que os primeiros foram concebidos pelos artistas renascentistas no início do século XIX e os demais foram canonizados pelos vários Papas que se sucederam ao longo da história da Igreja Católica.
Também não havia o famoso “túnel de luz” tão propalado, sobretudo pelos espíritas, e nem fiquei “sobrevoando” o meu próprio corpo. Aliás, sempre achei tudo isso bobagem! Mas respeito quem acredita!
Com base nessa minha inesquecível Experiência de Quase Morte, mas que eu jamais gostaria de ter passado por ela, é bastante científico, lógico e evidente que, se o pior tivesse acontecido, meu cérebro teria perdido as suas funções vitais, ou seja, ocorreria a morte cerebral e as imagens que eu estava vislumbrando simplesmente cessariam.
Em resumo: ficou bastante claro que a morte, para qualquer ser vivo do reino animal, incluindo os seres humanos, que tem algum tipo de consciência, ou seja, capacidade de percepção da vida, nada mais é que um último adormecer sem um novo despertar. Nada mais que isso!
LUIZ RORATO é inventor, escritor, poeta, artista plástico, Bacharel em Administração de Empresas, contabilista, empresário, Presidente da ABRACEM – Associação Brasileira de Amparo às Crianças e aos Maiores Abandonados, membro da APEP - Associação Paranaense de Escritores e Poetas
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